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sábado, 29 de outubro de 2016

O Mágico Halloween de Hogwarts - Desafio Literário

Desafio Literário 2050

O Mágico Halloween de Hogwarts


É dia de Halloween, e na escola de bruxaria e feitiçaria de hogwarts no ano de 2050 teremos um concurso de fantasias e um baile... Esta história irá girar em torno de 3 alunos do 1º ano de hogwarts: Jopo Darkness, Choa e Tony...
-Ei Jopo! Grita Andrew um aluno do 1º ano fantasiado de vampiro.
-O que você quer? Pergunta Jopo também fantasiado de vampiro.
-Eu te desafio para um duelo! Diz Andrew.
-Já te derrotei uma vez e posso derrotá-lo de novo. Porém... Em primeiro lugar, seria perda de tempo e em segundo precisaria de autorização dos docentes e isso daria uma dor de cabeça danada... Diz Jopo com preguiça.
-Está com medo? Provoca Andrew.
No mesmo instante Jopo levanta quieto...
-Vamos ao campo de quadribol... Diz Jopo sério.
Choa que estava fantasiada de zumbi e Tony que estava fantasiado de lobisomem estavam por perto, e ouviram a conversa dos dois e os seguiram em segredo.
No campo de quadribol... 
Jopo e Andrew ficam frente a frente e fazem reverencia, logo se virando e dando três passos de distância e Andrew ataca primeiro...
-Kadabrus duo! Grita Andrew ao fazer a movimentação e lançar o feitiço.
-Ah!!! Grita Jopo após ser lançado longe pelo impacto.
-Lacarnum Inflamare! Diz Jopo após se levantar e logo se aproximar fazendo a movimentação e lançando chamas azuis da ponta de sua varinha.
Logo após, Andrew começa a pegar fogo e antes que pudesse lançar outro feitiço como vingança, Jopo o deixa encharcado com seu Aquamenti.
-Pode ter certeza que da próxima vez eu vou te derrotar! Diz Andrew após sair correndo para a ala hospitalar.
Logo após, Choa e Tony que estavam assistindo escondidos aparecem...
-Parabéns Jopo! Dizem Tony e Choa impressionados com a luta.
-Não é pra tanto... Diz Jopo um pouco corado.

Enquanto isso...

-Senhoras e senhores, gostaria de dar inicio ao concurso de fantasias de halloween do ano de- Dizia o diretor de hogwarts que estava fantasiado de erkling até ser interrompido.
-Hoje vocês pagarão pelo que fizeram comigo no passado! Dizia um mago bem velinho que acabou de chegar voando.
-Quem é você? Pergunta o diretor.
-Eu sou Brupo Darkness aquele que amaldiçoará hogwarts por toda a eternidade! Diz Brupo.
-Transformatus diabólicus! Gritou Brupo após fazer uma movimentação estranha com a varinha fazendo um estranho pó verde começar a cair.
-Que feitiço é esse? Pergunta o diretor.
-Ah!!!!!! Gritaram todos após começar a se transformar no que estavam fantasiados.
-Hahahahaha! Ria Brupo.

No campo de quadribol...

-Vamos voltar então? Já deve estar na hora do concurso de fantasias. Diz Tony.
-Ok! Dizem Jopo e Choa em uníssono.

No pátio da escola...

-Cadê todo mundo? Pergunta Choa.
-Pelos? Indaga Jopo após achar pelos que aparentavam ser de lobisomem no chão.
De repente os três pequenos bruxos se encontram encurralados por exército de lobisomens pela esquerda, eram cerca de 50. Pela direita era visto um exército de múmias.
-Essa não! Diz Tony.
-Tony e Choa! Usem o Aquamenti para se livrar dos lobisomens. Eu me livrarei Das múmias com o Lacarnum Inflamare! Diz Jopo orientando os outros.
-OK! Dizem Choa e Tony em uníssono.
-Lacarnum Inflamare!!! Grita Jopo após fazer a movimentação com a varinha e imensas chamas azuis saírem de sua varinha incendiando todas as múmias.
-Aquamenti! Gritam Choa e Tony em uníssono após fazer a movimentação com suas varinhas e criar um jato d'água cada, encharcando e jogando longe os lobisomens.
-Bom trabalho! Jopo diz para Choa e Tony e começam a correr para dentro do castelo.

Após entrar no castelo...

-Ufa... Essa foi por pouco! Diz Tony. 
-O que está acontecendo? Todos parecem ter sido transformados em monstros! Diz Choa. 
-Só parecem? Indagam sarcásticos Jopo e Tony em uníssono.
-Pera aí... Talvez consigamos achar alguém na estufa de herbologia! Supõe Jopo. 
-Boa idéia! Diz Choa. 
Logo após, os três pequenos bruxos vão até a estufa de herbologia e logo se vêem separados e perdidos...
-Pessoal cadê vocês??? Grita Jopo que logo após é imobilizado por uma mulher cujas partes inferiores do corpo eram de cobra.
Logo Jopo se viu na maior encrenca possível, a mulher cobra estava se enrolando nele como uma sucuri se enrola em sua presa para devora-la. Já todo enrolado...
-Me solta! Dizia Jopo até a mulher cobra engolir ele inteiro vivo.

Onde Choa está...

-Gente cadê vocês? Perguntava Choa enquanto caminhava perdida.
Logo Choa se depara com a mulher cobra toda enrolada dormindo. 
-Meu Mérlin! Ela parece ter feito uma boa de uma refeição... Diz Choa assustada ao ver a mulher cobra com algo bem grande dentro de si.
-Melhor sair daqui... Suspira Choa e saí andando bem devagar.

Dentro da mulher cobra... 
-Socorro Choa! Gritava Jopo após ouvir a voz de Choa. 
Para o azar de Jopo, sua voz não chegou até Choa e ela foi embora. 
-Eu não posso morrer assim! Dizia Jopo tentando pegar sua varinha mas não obtia sucesso pois estava muito apertado. 
-Alguém me tira daqui! Gritava Jopo enquanto descia cada vez mais se aproximando do sistema digestivo da mulher cobra.

Onde Tony está...

Depois de muito caminhar, Tony encontra a saída da estufa de herbologia e se senta esperando os outros. 
-Choa cadê o Jopo? Pergunta Tony após ver Choa chegando.
-Eu achei que ele estivesse com você! Disse Choa. 
Logo Choa se lembra da cobra que viu mais cedo...
-Ah meu Mérlin! Ele está sendo digerido por uma mulher cobra! Grita Choa e saí correndo em busca de Jopo junta Tony.

Dentro da mulher cobra...

-Socorro!!! Gritava Jopo. 
-Kadabrus! Ouve Jopo e logo após é vomitado.

Fora da mulher cobra...

-Obrigado... Diz Jopo ao ver Choa e Tony. 
- Não há de quê, comida de cobra! Diz Tony dando gargalhadas. 
Logo após Jopo começa a encará-lo porém vão embora da estufa correndo até a diretoria,  onde Jopo encontra alguém que imaginava nunca reencontrar...

Na diretoria...

-Ora ora... Se não é meu sobrinho amaldiçoado! Disse Brupo. 
-Kadabrus duo! Grita Jopo após fazer a movimentação com a varinha.
-Avada kedavra! Gritou Brupo após fazer a movimentação com a varinha.
-Protego! Gritam Choa e Tony após fazerem a movimentação com a varinha e criarem uma super barreira protetora salvando Jopo do Avada Kedavra de seu tio. 
-Hahahahahahahaha! Ria Brupo loucamente. 
-Maldito... Você vai pagar por ter matado meus pais!
-Jopo... Jopo... Você ainda é fraco! Não pode me deter.
-Lacarnum Inflamare! Grita o trio após fazer a movimentação e lançar um jato de chamas de suas varinhas. 
-Kadabrus! Diz Brupo após fazer a movimentação e lançar o trio contra a parede.
Quando parecia que estava tudo acabado Brupo chegou perto de Jopo e antes que pudesse dar o golpe final, Jopo o deu uma rasteira.
-Parece que o jogo virou... Disse Jopo com a varinha apontaram para o pescoço de Brupo. 
-KADABRUS DUO! Gritou Jopo após fazer a movimentação e deixar Brupo inconsciente. 
Logo após todos voltaram ao normal, o trio foi premiado e a comemoração do Halloween prosseguiu com sucesso. Brupo disse que isso ainda não acabou, porém foi levado a askaban.

Em hogwarts...

-É... Essa foi uma aventura e tanto... Diz Choa. 
-E creio que muitas outras virão...

Fim!!! ^^

London, 2050

 JP. Darkness

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O Vale das Bonecas - Desafio Literário

Desafio Literário 2050


Dedicatória: Para meus pais, que me mostraram a beleza no horror.



O Vale das Bonecas


O nome dela é Maria
Linda e formosa
Mas não a primeira com a sina
Doce e meiga, mas muito ansiosa

Ela queria visitar o vale
O vale do qual não falam
Sete dias faltavam
O povo viu como um caminho ao abate

No dia seguinte de sua saída
Uma boneca no corredor de carvalhos surgiu
Isso significa que Maria encontrou sua sina
Mas ninguém interferiu

O nome dele é Marcos
Corajoso plantador de feijão
Ele tinha vários pensamentos
Com seu casamento no verão

Era outono e a morte caminha entre as árvores
Ela é bela e é perigoso se distrair
Acontece que ela o chamou para o vale
Pobre Marcos que se permitiu seguir

No dia seguinte de sua saída
Uma boneca no corredor de carvalhos surgiu
Isso significa que Marcos encontrou sua sina
Mas ninguém interferiu

O nome dela é Flora
Flora que dizem ser raivosa
Quando em muita companhia, ela vai embora
Sua paciência rapidamente se esgota

Para o vale ela foi a terceira a olhar
Quatro dias dali seria o fim do tormento
As folhas rolavam com calmaria de invejar
Caminhou para perto delas junto do vento

No dia seguinte de sua saída
Uma boneca no corredor de carvalhos surgiu
Isso significa que Flora encontrou sua sina
Mas ninguém interferiu

O nome dele é Henrique
Dizem por aí que ele não possui olfato
Era uma constante gripe
Muitos o chamavam de sensível e delicado

Henrique se sentia excluído com a chacota
Pelo menos perto do vale não sentia alergia
Entrou nele para tornar sua delicadeza lorota
Naquele vale que mal via a luz do dia

No dia seguinte de sua saída
Uma boneca no corredor de carvalhos surgiu
Isso significa que Henrique encontrou sua sina
Mas ninguém interferiu

Faltavam dois dias
E a população começou a se preocupar
Sabia-se que haveriam mais duas vítimas
Por seus filhos todos estavam a zelar

Naquele dia ninguém foi ao vale
Nem em sua orla, ou espiou para seu lado
O aviso que chegou pela noite foi um alarde
No corredor de carvalho não havia nenhum boneco pendurado

No dia seguinte do qual não houve vítima
Uma festa de comemoração se seguiu
Ninguém mais falava sem alegria
Cada um deles interferiu

Seus nomes eram Tadeu e Talía
Gêmeos que de mão dadas sempre andavam
Era lindo ver como Talía sorria
E como Tadeu era elegante quando os cumprimentavam

Sem medo e hesitação foi como entraram no corredor
Dos carvalhos, nenhum enfeite ou esplendor
As bonecas com as quais brincavam
Agora jaziam embaixo do leito de todos que festejavam

No dia seguinte junto à aurora de Halloween
As bonecas estavam de volta à seus postos
Os gêmeos possuíam mais bonecas enfim
Já que a população não pagou em sangue seus impostos

O nome era colônia de Roanoke
Um orgulhoso vilarejo pioneiro
Imagine para aqueles que chegaram o choque
Que foi não ter viva’lma no lugar inteiro



London, 2050

Por Moço Loiro

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A Quarta Rainha - Desafio Literário

Desafio Literário 2050

Dedicatória: Dedico à todos aqueles que parecem encontrar vários dentro de si, em diferentes situações, em diferentes sentimentos. Mas acabam descobrindo que todos, no final, são apenas você. Apenas um coração.

A QUARTA RAINHA


Todas histórias um dia começaram com Era uma vez. Esse conto, no entanto, deveria ser dito que a vez não se foi, a vez continua se passando. É dito que, havia muito tempo, uma mulher havia dilacerado suas irmãs, uma vez sendo quadrigêmeas dividindo um único útero, e absorvido cada uma para dentro de si.
Outras histórias falam sobre a Rainha, da qual foi apenas amaldiçoada. Rogadaà uma maldição, presa à quatro almas impiedosas. Porém, todas as lendas, todas as histórias, todos os mitos, datam um dia: 31 de Outubro.
A data em que os espíritos correm às soltas, as festas tomam força, e o medo corrói as entranhas dos covardes, A Quarta Rainha foi presa. Não em um local físico, mas sim, dentro de si.
A Quarta Rainha não foi amaldiçoada. A Quarta Rainha não comeu as irmãs no útero.
A Quarta Rainha nasceu assim.

Toda magia deve haver uma quebra. No vilarejo em que Maryse, o nome de Outono da Quarta Rainha, residia, com seu enorme castelo – a chamavam de Quarta Rainha por posse. A mulher mais rica de todos os vilarejos, a que mais demandava ordem. A mais poderosa. A mulher receava o Halloween.
Enquanto, a cada estação, a personalidade da mulher mudava, cada vez mais horripilante a cada ano, havia um único dia, entre todos, que a verdade face dela surgia: a mulher bondosa que era, de cabelos castanhos, volumosos e os olhos tão escuros quanto o breu. Durante 24h, a Quarta Rainha não era aquela Rainha. Era apenas Cirilla.
Sim, a Quarta Rainha havia cinco nomes. Um para cada estação, e um único para o Halloween. Ela era uma mulher de poucos amores – e os que tinha, deveria ser para si mesma. Menos Cirilla. Cirilla, que sempre só se libertava uma única vez, tinha um único amor, do qual poderia ver uma única vez ao ano.
Ela chamava-o de Noturno. Havia prometido à si mesma nunca saber o nome dele, pois sabia que as outras Rainhas, se soubessem seu nome, iriam atrás dele quando acordassem dentro de si. Iriam destroça-lo, sem piedade, pois gostavam de diminuir Cirilla. Mostrar que ela não era nada além de uma fraqueza de Halloween.
Mas a meia noite do dia trinta e um de outubro se aproximava. E com ela, Maryse perdia suas forças, e Cirilla podia passar a surgir. A transformação de uma Rainha para outra era tensa: dores, tanto físicas quanto psicológicas. Acontecia sempre à meia noite, na troca das estações, e do Halloween. No caso de Cirilla, ela se despediria de si mesma à meia noite do dia de Todos os Santos. Quando novembro começasse, ela ficaria por mais 364 dias adormecida.
Sentindo falta de seu Noturno, enquanto a dor em seu peito, sempre crescente, só aumentava.

O vigésimo Halloween da Quinta Rainha, a Adormecida, havia começado. Seu único dia de vida, seu único tempo de liberdade. Ela podia assumir seu corpo, mas as outras Rainhas ainda batalhavam por sua mente; todas juntas, contra apenas uma. E por isso, ela nunca conseguia aproveitar seu dia como deveria.
Os gritos tomaram o castelo quando a meia noite chegou, a lua cheia alta no céu. O vilarejo já estava acostumado: espíritos saíam. Alguns diziam que o próprio Regente dos Espíritos e do Halloween passava pelo Vilarejo, cavalgando em seu cavalo esquelético e liberando os espíritos lá do alto.
Tal lenda era tão forte que deveria ser verdade. Quando o Halloween chegasse, a cidade se tornaria cores. Roxo, laranja, verde, azul. Espíritos de diversas cores eram jogados, celebrando. E do castelo, saiam os Cavalgantes. Cavaleiros feitos de pura trevas, libertados pela própria Maryse. Deve ser dito que cada uma das Rainhas tinha uma habilidade especial, e de Maryse, era a necromancia. De Cirilla, a magia branca. As outras três Rainhas eram ocultas até o momento.
Os Cavalgantes assombravam aqueles dos quais tinham medo. Assombravam também Cirilla, que era a mulher com mais medo naquela vila. Temia suas irmãs, e temia por todos aqueles que eram governados por ela. Durante todo dia das bruxas, a Quinta Rainha buscava celebrar seu amor com Noturno.
Aquela noite, no entanto, ela faria outra coisa. Tinha vinte e quatro horas, a partir dali, para cumprir seu feito: quebrar a Quarta Rainha. As quatro mulheres que viviam dentro de si, compartilhavam de seu coração, de seu sangue, de sua pele. Cirilla iria expurgar elas.
Como o faria? Matando uma por uma.

- DOZE HORAS DEPOIS –

Os espíritos sumiam durante o dia. Nenhuma assombração era resistente à luz solar. Um festival, porém, era feito, para celebrar aquela data. Era comum que, na cabeça de todos, a Quarta Rainha se recolhesse em seus aposentos no Halloween, já que ela fazia questão de esconder a existência de Cirilla, a Quinta Rainha.
Apenas Noturno sabia. Quando o sol estivesse em seu ápice, eles se encontrariam. Havia sido assim faziam cinco Halloween’s. O local de encontro era uma pedreira, à beira do Mar Tempestuoso – um local que banhava a costa do vilarejo, não importando se o dia era chuva ou sol, o mar sempre assustava as pessoas com sua fúria e águas agitadas, incansáveis.
Mas naquele dia, ela não seguiu para lá. Cirilla foi direto para o coração do bosque, com uma mochila nas costas, e não para o litoral. Seus passos eram apressados, rápidos, esguios. As Rainhas costumavam ficar desacordadas durante a noite, mas pelo dia, apenas seus sussurros suportáveis podiam ser ouvidos pela garota.
“Indo encontrar seu namorado?”, dizia Mayleen, a Rainha do Verão.
“Ele tem um ótimo gosto!”, dizia Moira, a Rainha do Inverno. É claro que os prazeres e dores que uma sentisse, as outras sentiriam também. Moira era, surpreendentemente, a menos cruel.
“Ele deve ficar com você por piedade. Tantas melhores por aí...”, dizia Mawreen, a Rainha da Primavera.
“Você não deveria nem estar viva, sabia? Dar amor à ele só vai lhe trazer dor, sua burra!”, dizia Maryse. A mais arrebatadora de todas as Rainhas.
Cirilla, a Rainha do Halloween, apenas podia pedir por paz. E nutrir o desejo de mata-las, acabar com elas até que seu coração batesse apenas por si.
E por Noturno.

As demandas para matar a Quarta Rainha eram simples, mas dificultosas ao mesmo tempo: para mata-las, Cirilla, que nada tinha a ver com elas, deveria trazer à si um pedaço de cada uma. Agir como elas, por um único momento.
Os atos eram tão cruéis que ela ponderava à cada segundo. Mas faziam vinte anos que ela ficava naquela tortura. Naquela constante inquietação, a cada ano. Cirilla precisava de paz, além de que sabia que as Rainhas cresciam. Junto delas, o mal também. Se não as parasse, ninguém jamais pararia elas.
Começaria pela primavera. Onde a natureza floresce, os animais cantam.
Os venenos brotam.
Mawreen, a Venenosa. Esse deveria ser o mais rápido dos trajetos que ela tomaria naquele dia. Escondida ainda nos bosques, Cirilla encontrou por lá Visco Sanguíneo. Uma espécie rara, que atingia o coração de quem o ingerisse rapidamente, penetrando-se entre as entranhas do músculo e sendo bombeado junto com o sangue.
O efeito? Coagulava o sangue todo da pessoa em menos de uma hora.
A crueldade de tal ato já deixava a consciência da Quinta Rainha pesada, mas era necessário. Ela partiu para o centro da Vila logo em seguida, carregando em sua bolsa um bom punhado de Visco Sanguíneo. Seus cabelos negros e cheios, tão diferentes dos suntuosos cabelos da Quarta Rainha, e seus olhos negros, também tão diferentes dos outros olhos quando transformados, a disfarçavam. Ninguém a reconhecia enquanto caminhava pelo vilarejo.
Seu local de ataque teria de ser um local cheio. A crueldade só vingaria se fosse realmente cruel. Uma taberna, então. Com sua magia, Cirilla enraizou-se na cozinha do local, e fingindo ser uma funcionária, com muita destreza esmagou o Visco nas bebidas e alimentos que seriam distribuídos. Seu plano era que apenas as dez ou quinze pessoas ali encontradas... Encontrassem seu fim.
Era algo egoísta. Algo sem pensar. Algo imprudente.
Mas ainda assim, Cirilla estava determinada. Não poderia ir para trás. A Quarta Rainha devia morrer.
Os alimentos foram distribuídos logo em seguida. O bar, que era tão agitado, em pouco mais de uma hora, estabeleceu-se em silêncio. Cirilla saiu da cozinha, tirando o avental improvisado do corpo.
Eram vinte, no total.
Cinco crianças. Seis idosos. Nove pais e mães de família. Mortos.
Cirilla gritou de dor, enquanto sentia Mawreen definhar dentro de si.

Os lábios de Noturno eram suaves sobre os dela. Aquele havia sido seu primeiro beijo, e enquanto ele, que era apenas um ano mais velho, parecia ter roubado vários por todo o vilarejo. Eram quentes, e tinham o gosto selvagem que ela tanto buscava. Pressionava os lábios nos dele, deixando-se ser conduzida pelos movimentos abrangentes e calorosos.
As mãos dela se envolveram nos cabelos do rapaz. Noturno pressionava ela contra a madeira mofada da cabana, no meio do bosque. Eram onde tinham se conhecido, dois anos atrás, antes de combinarem de se encontrarem sempre ao meio-dia, na pedreira do Mar Tempestuoso.
– Deixe que eu fique com você para sempre – pedia ele.
– Elas vão acabar com você, Noturno... – sussurrava a garota entre as mordiscadas quentes que o rapaz lhe desferia em seu lábio inferior.
– Sabe que meu nome não é esse.
– E ele não me importa. Eu... Só quero que me deixe aproveitar com você essa noite, okay? Falta pouco para...
– Para eu voltar ao poder? – sussurrou o rapaz. Mas aquela não era sua voz. Quando Cirilla abriu os olhos, viu-se próxima do homem que tanto amava, mas com tênues detalhes: os olhos avermelhados dele, e a voz feminina. – Pronta para me deixar voltar, Cirilla?
A morena gritou, em seu pesadelo, antes que Maryse fizesse algo pior com ela.

Eram quase quatro horas da tarde. O sol iria se pôr às seis. Cirilla acordou. A dor havia sido tanta... Ela se lembrava, de após ter saído da Taverna, chorando, havia se embrenhado novamente no bosque. Até que... Desmaiou, como se um manto negro apenas tivesse envolvido sua cabeça de uma só vez.
Ela se levantou, com suas forças quase repostas. Sua mochila parecia pesar mais, mas nada verdade, era ela que se encontrava mais fraca. Era hora de ir para o inverno. A morte por frio era a necessidade, e ela teria de fazê-lo. A garota parou para se alimentar brevemente, e assim, seguiu para a vila. Crianças. Ela sabia que teria de raptar crianças.
A magia dela a influenciava. Ela não precisava de nenhuma outra informação – era como se fossem apenas... Instintos. A magia dela a guiava para o que ela tanto queria, e a magia dela dizia que para ser má como Moira, deveria matar as crianças.
As crianças mais calorosas do Vilarejo, porém. As que carregavam o sol em suas veias. As que apagariam com o inverno frio.
Na vila em que moravam, havia apenas duas crianças assim. As mais famosas – as guerreiras. Um casal, filho de Solar, o Comandante das Tropas. Mayleen já havia tido um caso com ele uma vez... E desse caso, nasceram os filhos deles. A garota tinha só quinze anos quando seu corpo deu espaço para as crianças.
Filhos da Quarta Rainha, não dela. Cirilla devia sempre se lembrar disso.
A mutação da Quarta Rainha também se manifestou em seus filhos: as crianças, porém, não tinham outras mentes dentro dela. Elas cresciam mais depressa. Foram fadadas a ter uma vida com metade do tempo das outras. Em cinco anos que haviam nascido, tinham a aparência e mentalidade de crianças de treze anos.
Lindas. Louras. Olhos claros, pele maravilhosa. Aquelas crianças poderiam ser guerreiras tão bravas, que poderiam trazer paz para o local. O coração de Cirilla se amargurou com a ideia de mata-las, mas não poderia, como dito, voltar para trás. A Quarta Rainha continuaria buscando por mais poder, cada vez mais, até que, um dia, quando tomasse mais posse do que já havia, só poderia trazer caos.
As crianças estavam na mansão Solar. Moravam sozinhas com o pai. Nos fundos da Mansão, havia um refrigerador mecânico, onde o pai guardava a carne da família – ele, apesar de ser um guerreiro, era meio desequilibrado, também fruto de seu relacionamento com Mayleen, e não saía com frequência. Quando caçava, caçava para o semestre todo. A comida ficava lá, e seria lá que as crianças acabariam por falecer também.
Solar não estava visível quando Cirilla lhe invadiu o local. Seu senso lhe dizia que ele estava escondido em um dos cômodos. Mas as crianças podiam ser vistas facilmente, manejando suas espadas de madeira.
Ao se aproximar mais delas, o corpo de Cirilla esquentou. Ela sentiu calor, e mais calor. Suas têmporas passaram a se encharcar de suor, gotículas escorrendo por seu rosto.
Era Mayleen reagindo.
Cirilla precisava ser forte. O sol iria se por em uma hora, a partir daquele momento. Movendo as mãos, concentrando-se com sua magia, ela desacordou os dois jovens, que brincavam no largo cômodo da Mansão. Os arrastou até os fundos, passando pelo jardim, e assim, pela construção onde ficava o refrigerador. Era como uma galeria, interligada com os estábulos e um depósito. O local era escuro, e tochas presas em compartimentos metálicos iluminavam o local.
O refrigerador ficava nos fundos. Ela o abriu, com um enorme estrondo. O corpo dela ardeu mais em calor. Ela quase sentiu vontade de adentrar dentro do local enquanto jogava as crianças lá dentro, com lágrimas nos olhos. Os acordou, pois essa era parte das normas para acabar com Moira: a morte fria fosse vista e sentida.
Fechou o refrigerador quando as crianças olharam para ela. O estrondo ecoou pelo local enquanto ela chorava mais, sabendo que elas morreriam. A mão de Cirilla alcançou a manivela, e ela a girou. Girou, enquanto podia ouvir o refrigerador funcionando. Podia ouvir o gelo se alastrando lá dentro do local, enquanto as crianças gritavam por socorro e misericórdia.
Imploravam por sua vida, enquanto A Quinta Rainha só queria ter a própria.
– Me desculpe – disse ela. Até que girou a manivela uma ultima vez.
Os gritos de socorro pararam. E os gritos em sua mente denunciaram a morte delas: Mayleen, mais forte do que nunca em uma noite de Halloween, enquanto Moira definhava junto com comMawreen.
“VOCÊ MATOU MEUS FILHOS! SEUS FILHOS! VOCÊ MATOU ELES!”, gritava ela, desesperadamente, dentro da mente de Cirilla. “Eu vou fazê-la pagar...”
E a fez. De repente, Cirilla gritou de dor. Nunca havia sentido algo do tipo. Nem sabia que Mayleen poderia sentir compaixão, mas lá estava ela. Havia perdido o controle do próprio corpo, enquanto podia ouvir palavras proferidas da própria garganta, mesmo que não fosse ela que as dissesse.
– AQUI! – gritou ela. – SOLAR! – Gritava mais, e repetiu, repetiu novamente, e novamente. O homem apareceu...
Era hora de fazer Mayleen queimar nas chamas que tanto fez os pobres arderem.
Ao lado do refrigerador, havia seu combustível, um tipo de óleo inflamável. Solar apareceu, correndo pelo local, sem entender. Cirilla tinha de ser rápida, enquanto lutava para voltar para o controle do próprio corpo. Quando conseguiu, Solar já estava próximo demais...
A Quinta Rainha correu até o tanque de combustível. Puxou uma trava metálica em sua base inferior, deixando que todo o suporte que o segurava, caísse. O óleo se espalhou para todo lado...
Os próximos movimentos parecerem ser câmera lenta. Solar a olhava confuso, mas com uma fúria subentendida no olhar. Cirillacorria, suja de óleo, até uma das tochas.
Jogou a tocha contra o óleo, e as chamas se acenderam como dizem que a força superior deu luz ao mundo.
Antes que fosse feita de fogo, a Quinta Rainha só teve tempo de abrir uma barreira de proteção, impedindo que a explosão que logo se assomou ao local a matasse.
“Feita de fogo, me deixe te fazer queimar”, foi tudo que Cirilla pensou para Mayleen, antes de cair de exaustão.

Não teve sonhos dessa vez. Ela acordou apenas sentindo dor.
Ela estava... Enjaulada. Em cárcere, pôde notar. Seus pulsos eram presos à longas correntes negras, presas ao teto, enquanto se via em uma construção de pedra com grades também negras à três metros à sua frente. Presa.
Haviam capturado ela. É claro que não a reconheceram... Mas devem ter ouvido a explosão. Descoberto que Solar e as crianças estavam mortas. Seus pulsos doíam, e ela pôde ver sua mochila jogada próxima à grade. Tentou se esticar para pegar a mochila, mas seus pulsos presos a continham.
O local era escuro. O que era engraçado, porque ela podia ver a janela à direita e...
Havia anoitecido.
– Não – sussurrou a Rainha, para si mesma. Se estivesse próxima à meia noite... Ela perderia tudo de novo. E acreditava que durante um ano, a tortura seria pior do que nunca, enquanto as outras Rainhas tivessem posse. – Não pode ser...
Cirilla tentou usar magia para quebrar as correntes, mas não deu certo. Eram benzidas à ferro e sal. Resistentes à magia. Ela praguejou baixinho, ininteligível. Droga.
– Deixe de tentar. Os Cavalgantes irão sentir seu medo logo mais, e irão te retirar daqui – anunciou uma voz. Ela conhecia muito bem aquela voz. Maryse. Cirilla olhou para frente, na direção em que ouvia. E lá estava, olhando para a figura bela que Maryse era.
Longos cabelos castanhos, um castanho claro, como folhas secas do outono. Os olhos, eram os mais belos das Rainhas, Cirilla achava. Olhos de um verde morto, fosco. A pele, era pálida; a única coisa que elas compartilhavam, era a pele pálida, extremamente pálida.
– Como eu posso estar te vendo? – indagou Cirilla. Aquilo não deveria ser nem perto do possível. – Não é meia-noite ainda. Não sinto as dores.
– Isso aqui, é claro, é uma ilusão da sua cabeça. – Maryse sorriu, balançando a cabeça em uma negativa. – Você é tola, Cirilla. E até inocente. Acha mesmo que poderia ser uma de nós, em pelo menos, um ato? Não somos tão imprudentes, garota. – A mulher se ergueu; desde que apareceu, estivera sentada, com as costas para a grade. – Nós não mataríamos sem planejamento. Nós não nos entregaríamos puramente à magia. Nós pensaríamos. A Quarta Rainha, nós, somos inteligentes. Não burras. E agora, que você agiu assim, enfraquecendo Mayleen, Moira eMawreen, eu fico mais forte. Porque sou a única que sobrou, entende? Se elas estivessem mortas, eu seria tão forte que eu não seria apenas uma ilusão. Eu poderia tomar seu corpo, entende?
– Então me ajude a mata-las. Você sabe que só preciso de um ritual para mata-las por completo, agora que estão fracas...
Maryse gargalhou. Céus, foi uma risada cruel. Os ossos de Cirilla pareceram congelar, assim como arrepios nada aconchegantes lhe subiram a coluna. Ouvir aquele som era agoniante. Mesmo assim, a garota teve de permanecer firme, olhando nos olhos de Maryse, não deixando-os vacilarem.
– Sua tola! – disse ela, rindo mais. – Eu não sou a Quarta Rainha sozinha. Sem Marween, Moira e Mayleen, não existe quarta rainha. Eu posso ficar mais forte, mas únicas, nós somos o poder.
– Eu faço parte desse poder! Vocês vão acabar arruinando tudo com essa ambição. Ter posse da Vila vai apenas mata-los.
– Poder? – perguntou a mulher, negando com a cabeça em um gesto. – Cirilla, você não é o poder. Você sempre foi nossa fraqueza. Sempre foi nossa vergonha. E agora, veja onde chegou. Cirilla... Você mesma destruiu a Vila.
– O quê? Não. Eu fiz... O que era necessário para acabar com vocês. Não me importa se eu acabarei junto.
– Os venenos que usou, eles vão ser distribuídos para o festival. Todos irão se alimentar, e se não todos, a maior parte. Sabe como amamos uma festa. Não perdem a oportunidade de se embebedar, afinal, são puros porcos. Assim como você. Uma inútil. – Uma risada ecoou novamente da garganta de Maryse. –Você fica presa por tanto tempo que não acaba acompanhando todos os ocorridos. Solar passou à ter o refrigerador da Vila toda. Todas as carnes que gastaram tempos caçando, para que quando o outono viesse, não sofressem com escassez. E você o explodiu. Temos guerreiros, bruxos. Não sobreviverão apenas de plantas. Precisarão de carne pra fortalecer, Cirilla...
– E eu arruinei tudo.
Maryse apenas sorriu, inclinando-se sobre a garota. Uma mão tocou seu rosto. O toque de Maryse era morno, mas áspero. Também lhe trouxe agonias.
– Bem-vinda ao inferno que é o remorso, Cirilla. E que seja castigada nele o máximo que puder.
A Quinta Rainha fechou os olhos, balançando a cabeça. Uma risada ecoou pelo local, violenta, até que foi interrompida por outros sons.
Gritos. O som estridente de metal contra metal. Gemidos de dor. Cirilla abriu os olhos, olhando para fora da cela onde estava. Vindo do corredor escuro, uma figura vinha. Ela torcia para que não fosse um Cavalgante...
Mas quando a luz banhou o rosto da figura, ela gemeu em surpresa, o ar escapando de seus pulmões enquanto ela sorria.
Noturno.
O corpo dele, forte, era coberto por uma espécie de armadura. Era esguio, mas os braços do rapaz eram soltos, morenos, mostrando as cicatrizes de batalha. Noturno era um guerreiro, um dos mais habilidosos. Ele tinha duas espadas embainhadas, uma em cada lado do quadril. Uma foice nas costas. Cirilla se perguntava como ele se movia com tanta facilidade, considerando o peso.
Os olhos dele, de um azul tão claro quanto o céu, contrastavam com o que ela atribuiu o nome dele: os cabelos. Cabelos negros, caindo sobre o rosto em suaves cachos. Nunca viu cabelos negros de tanta intensidade, rebeldes e selvagens. Noturno arrancou uma das espadas da bainha, e violentou as grades de uma só vez com a lâmina, abrindo-a com um baque.
– Noturno... – sussurrou ela, enquanto via o amado lhe arrancar as algemas negras. Ela pode sentir sua magia voltar para si, aos poucos.
– Cirilla – sussurrou ele de volta, segurando o queixo dela, e logo então, a beijando, uma única vez. – Precisamos sair daqui. Falta apenas uma hora para a meia noite. Eu te procurei o dia todo... Não pude acreditar quando soube que uma garota, com suas características, havia sido presa. Não tive alternativa se não vir ver... E colocaram um quadro lá fora, te expondo como bruxa. Precisamos sair, logo!
Ele a tomou nos braços. Ela pegou a mochila, esticando-se e finalmente alcançando-a.
– Leve-me para a pedreira – foi tudo que ela disse. Lá, faria o ritual. Lá, expulsaria as irmãs. Lá, faria Maryse saber o que era arder no inferno.

Eram onze e quinze quando chegaram na pedreira. O Mar Tempestuoso estava violento, claramente furioso, e ela podia ouvir as ondas quebrando contra a pedreira, a porção elevada de terra, talvez trinta ou quarenta metros acima do mar.
Cirilla passou a preparar tudo. Não iria enfraquecer Maryse, como fez com as outras, pelo simples motivo de que... Com o outono, a morte seca vinha. As folhas caíam, os animais ficavam sem alimentos, e tudo desandava.
Para que a crueldade de Maryse despontasse em Cirilla, ela teria de matar Noturno. Sua magia lhe disse isso. E ela se negava a fazê-lo.
Preparou o ritual. Pegou uma adaga em sua mochila, e cortou a própria mão. Contou para Noturno seu plano, apesar de omitir toda a história – de que os assassinatos, e até a destruição da própria Vila, seria por conta dela.
Deixou o sangue pingar no local. Acendeu chamas com pequenas velas que tinha na mochila. A pedreira era naturalmente enfeitada pela natureza: quatro enormes pedras, como lacunas. Cirilla se lembrava de ter... Tido momentos íntimos com Noturno ali.
O amor de sua vida. Ela prometeu à si mesma que teria mais momentos ali.
– Noturno, você deverá ir. Eu... Posso fazer isso sozinha.
– Eu não vou te abandonar, Cirilla.
Não iria discutir com ele. Ela seguiu o ritual, do qual sua descrição seria desnecessária, pelo simples fato de que magia é magia. Não se discute magia.
O ritual também era doloroso. Quando a lua se aproximava, cada vez mais, de seu ápice, a dor a tomava mais. A transformação se aproximava...
Cirilla gritou. De repente, quatro vultos saíram de dentro dela. Vultos negros, com apenas cabelos sendo perceptíveis. Maryse, a mais forte, com os cabelos castanhos. Moira, com seus cabelos platinados. Mayleen, com seus cabelos dourados. E Mawreen, com seus cabelos ruivos.
Cada uma ficou presa à uma das pedras. Ou era pra ter ficado; de repente, o vulto de Maryse, que não se conteve às magias da Quinta Rainha, voou até Noturno, envolvendo-o em seus braços esfumaçados.
– Se continuar, eu o matarei. Sabe que tenho força para isso. – A voz dela era estridente, aterrorizante. Pareciam gritos, vários gritos em uníssono em uma única voz.
– Ei! Não! Não, não, não! Não o mate... Eu imploro – pediu Cirilla. Mais uma vítima, e sendo aquele do qual ela amava, ainda por cima. Ela não aguentaria. Mas também não se renderia. – Se o matar, eu me mato. Me ouviu?
Cirilla puxou a faca em que havia cortado a própria mão, colocando-a contra o próprio peito.
– Duvido que faça isso – disse Maryse, com desdém.
Duvidava, hum? Cirilla fechou os olhos, tomando coragem de ferir-se. Se aquele corpo morresse, todas morreriam também. Talvez ela devesse ter feito isso antes... Antes de arruinar tudo.
– Cirilla! – gritou Noturno. – Não!
Mas já não era mais tempo. Em um momento decisivo, ela desceu a faca para a barriga. Afinal, poderia continuar viva a partir de então, dessa facada. Ergueu a lâmina, e logo em seguida a enterrou na própria pele.
A dor foi lancinante. A pior de sua vida. Mas nada se comparava ao prazer de ouvir Maryse gritar novamente, soltando Noturno, e dissipando-se. Ela havia morrido. Uma após a outra. Cirilla estava prestes a no chão, sangrando. Noturno correu até ela, tomando-a nos braços.
– Meu amor... Vamos cuidar dos ferimentos, okay? Por favor, seja forte. Por favor.
“Achou que nos mataria, hum? A meia noite está próxima. Se seu corpo morrer... A eliminada é você. O ferimento irá sumir quando Maryse voltar”, foi o que ela ouviu em sua cabeça. A Quarta Rainha dizendo.
– NÃO! – gritou Cirilla. Com o que restava de suas forças, ela se jogou. Impulsionou-se para longe dos braços de Noturno.
A ultima visão que ela teve foi dos olhos claros contra a escuridão que era os cabelos de seu amado.
Sentiria falta deles, enquanto queimasse com as suas irmãs.
O corpo da Quinta Rainha foi levado de encontro ao Mar que nunca tinha sua fúria acabada.
A mente da Quarta Rainha, a luz cheia de más intenções, por fim, se apagou.









Um ano depois

O castelo se abriu. O Halloween havia chegado. O homem de cabelos negros se aproximava, entrando no castelo. Em cinco minutos, o Halloween chegaria, a lua, em seu ápice, liberaria os espíritos e os festivais.
Muito havia se recomposto em um ano. E apenas uma testemunha sabia de tudo que aconteceu.
Essa testemunha, porem, virou quatro.
Quando a lua tocou o céu, o laranja, o roxo, o verde e o azul vibraram, tomando tudo de risos. Não haviam mais cavalgantes, não haviam mais trevas. Ou isso era o que pensavam. Nenhum acidente, mais nenhum assassinato. Mas, em um local profundo, enfiado em um dos cômodos do castelo, Noturno ria. Ah, como ele ria. A transformação não lhe doía, lhe dava prazer. Os cabelos negros como a noite tomaram um tom dourado. Os olhos dele, se tornaram prateados, diferentes do azul paradisíaco que normalmente tinha.
O Quarto Rei estava ali para clamar pelo sangue derramado de sua amada.


London, 2050

 Por Gray Crow

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

El Gottic - Desafio Literário

Desafio Literário 2050
Dedicatória: Para P, espero que esta história chegue até onde minhas cartas falharam.

El Gottic


El Gottic O bairro gótico da cidade de Barcelona, conhecido como El Gottic, é um dos mais antigos bairros da cidade, abriga estabelecimentos que vivenciaram as duas grandes guerras trouxas que devastaram parte da Europa e casas nas quais incontáveis famílias viveram suas vidas. Suas ruas estreitas e sinuosas guardam em suas entranhas segredos sombrios, crimes de guerra, magias esquecidas e histórias tenebrosas.

Embora atualmente, o bairro seja um dos pontos turísticos mais famosos de toda a cidade, estrangeiros que ali trafegam nem desconfiam das desventuras que o lugar já viveu. Aqueles mais sensíveis ao ambiente podem até dizer que sentem alguma forma de energia sombria emanar das paredes de pedra, mas mesmo assim, acabam deixando escapar a verdadeira essência daquele lugar.

Os moradores do bairro (especialmente os mais velhos) não deixam sua história morrer. São eles os responsáveis por manter vivo todos os segredos que o bairro guarda. Existe, entretanto, um seleto grupo de anciãos bruxos, residentes daquela localidade, que formam a décima nona geração de uma antiga Ordem bruxa chamada de Els Guardianes, que se dedica exclusivamente em preservar a história mágica do bairro. A Ordem copilou ao longo de sua existência, sete volumes extensos sobre todos os eventos mágicos que lá ocorreram, algumas dessas histórias narram acontecimentos tão bizarros que até mesmo nós, bruxos, duvidamos de sua veracidade.

A história que hoje vou contar é uma delas. Ela se passa no final do século XII, um tempo sombrio para os trouxas e também para os bruxos. Era a festa da colheita, dia 31 de outubro. Naquele dia na praça da Catedral da Sagrada Família fazia-se uma enorme festa onde celebrava-se a farta colheita do ano, que asseguraria que nenhuma pessoa na cidade morreria de fome (pelo menos, não no próximo ano). O que as pessoas não sabiam, era que no subterrâneo sob o festival, um plano horrível era colocado em prática.

Bruxos encapuzados lá se reuniam, tramando o que poderia ser uma revolução para o mundo mágico. O ritual que os bruxos planejavam, entretanto, exigia um preço muito alto: o sacrifício de uma virgem. Sem saber de nada que ocorria nos esgotos, a festa trouxa durou toda a tarde e ao cair da noite, a multidão se dispersava voltando para suas casas.

- O momento é propício. – Disse o bruxo usando uma capa vermelha que o cobria por inteiro.

- Está tudo pronto, podemos começar quando o senhor ordenar. – Respondeu-lhe um dos bruxos de capa roxa. – A virgem já foi escolhida.

- Devemos esperar pelo retorno de Éolo. – Ordenou o mesmo bruxo de capa vermelha – Ele está trazendo a caixa.

Os bruxos reunidos em círculo em volta de uma fogueira ficaram em silêncio por um longo momento, aguardado o retorno de Éolo, até que um dos bruxos de capa verde questionou.

- Senhor Urano, não que eu esteja duvidando, mas estamos mesmo prontos para realizar isso?

O bruxo de capa vermelha virou-se na direção do bruxo que o questionou.

- Quer receber sua capa azul, não é mesmo, Crio? Não é o momento para questionar sua capacidade. Confie.

Mais uma vez o silêncio reinou, sendo quebrado intermináveis minutos depois, pelo som de passos que vinham de um dos lados do corredor escuro que era aquela galeria subterrânea sobre a praça da catedral. Os passos lentos logo revelaram que a espera havia terminado. Éolos, um bruxo de capa vermelha, havia retornado e trazia consigo o que parecia ser um pequeno baú dourado ornamentado com joias preciosas.

- Aqui está. – Disse Éolos aos seus irmãos. – Estamos prontos para começar.

- Muito bem. – Disse Urano voltando seu olhar aos dois bruxos de capa roxa que estavam presente no local. – Febe e Pontos, preparem o ritual.

Os dois bruxos fizeram uma reverência na direção de seu superior e retiraram-se do círculo. Já estava quase totalmente escuro quando deixaram o subterrâneo dirigindo-se para a praça da catedral. A festa já havia terminado a cerca de duas horas. Os bruxos atravessaram a praça até a escadaria que levava à entrada da igreja, subiram degrau por degrau e no topo, desenharam um círculo mágico no chão com o uso de suas varinhas. Febe conjurou uma grande mesa de granito que foi colocada no centro do círculo enquanto Pontos acendia chamas de várias cores nos vértices de uma estrela de sete pontas. Correntes de prata caiam da mesa de granito conforme Febe agitava sua varinha. Quando tudo estava praticamente pronto, os bruxos com capas vermelhas, roxas e verdes atravessaram a praça até o local. Entre eles, flutuava uma mulher desacordada de cabelos negros, usando um suave vestido de seda branco que deixava suas belas curvas transpareceram.

O séquito caminhou até o círculo mágico preparado na entrada da igreja. A mulher foi acorrentada sobre a mesa de granito no centro do círculo, tendo os braços e pernas presos. Éolos aproximou-se da mesa, abaixou-se e aos seus pés colocou o baú que havia trazido consigo. Quando Urano ordenou, todos os bruxos encapuzados colocaram-se em volta do círculo, apontando suas varinhas para o baú dourado e a mão livre sobre o coração.

Pontos ficou atrás da mesa de mármore e em vez de varinha, segura em sua mão uma espada adornada com runas. Os bruxos então começaram a entoar um cântico em uníssono que ecoou por toda a praça. De suas varinhas pendia-se um cordão etéreo branco que ligava todas elas ao baú. No meio do canto, a virgem de vestido branco acordou sem compreender o que acontecia e ao notar que estava acorrentada na mesa pelas mãos e pés, tentou em vão se soltar.

A pobre virgem desesperou-se ao ver o rosto do homem que segurava uma espada com as duas mãos no alto de sua cabeça. Ela gritou. O grito súbito e agudo, espalhou-se pelos quatro cantos da praça, atravessando paredes, adentrando residências, ecoando pelas naves da catedral e preenchendo todo o bairro. Velas foram acesas nas casas, crianças acordaram chorando de medo, homens e mulheres atordoados sem saber o que fazer tiveram seus corações gelados e seus músculos paralisado. Mais repentino que o surgimento do grito foi o seu fim precipitado quando a espada de Pontos lhe atravessou a garganta, separando a cabeça do corpo em um corte perfeito e quase limpo.

O sangue que do corpo jorrou como em uma fonte, sujou o que estavam mais próximos, espalhando-se pela mesa de sacrifício até descer e tocar a caixa e o círculo do ritual. Conforme o sangue percorria o caminho desenhado pelos ritualistas, as chamas multicoloridas foram apagandose uma a uma. Os lampiões que iluminavam a praça também se apagaram quando um forte vento soprou por eles. Por um momento, isso foi tudo o que aconteceu, mas repentinamente o baú ensanguentado agitou-se e o cadeado que o mantinha fechado foi estilhaçado. Sua tampa abriu-se bruscamente. Os bruxos ao redor ainda mantinham suas varinhas ligadas à peça quando a escuridão que preenchia o local não foi suficiente para esconder os horrores que abandonaram o baú.

Figuras disformes, híbridos horrendos de animais, espíritos maldosos e plantas amaldiçoadas foram aos poucos rompendo as ligações entre os bruxos e o baú. O vento soprava mais forte à medida que as criaturas abandonavam o local. Risadas infernais, urros de raiva, arrastar de correntes, vozes desesperadas e assovios arrepiantes ecoavam entre o vento por toda a praça.

Quando os bruxos encapuzados pensavam ter liberado tudo o que estava no baú, eis que surge uma última criatura que fez o vento parar e as luzes voltarem a preencher a praça. A criatura, pequena do tamanho de um camundongo, mas com aspecto de fada, brilhava em tons verdes. Seu rosto de aparência suave olhou para cada um dos bruxos que a havia libertado, sorriu e desapareceu voando pela noite escura.

Os bruxos estavam quase em transi quando o baú fechou-se com um estrondo, fazendo formar o cadeado novamente agora trancando um baú vazio. Sob os capuzes, os bruxos olharam-se. O ritual fora um sucesso.

- Meus irmãos, o ritual foi bem-sucedido. – Bradou Urano. – A Caixa de Pandora fora aberta.

Orgulhosos do feito que acabaram de realizar, os bruxos foram se retirando do local levando consigo apenas o baú dourado. A cabeça da virgem sacrificada ainda exibia o terror nos olhos quando foi encontrada por trouxas que se aventuraram pelo local nas horas seguintes.

- Isso é coisa do demônio. – Afirmavam alguns. – Deveríamos chamar o bispo.

- Vamos avisar o padre. – Disse outro.

O que os trouxas que encontraram a cena não sabiam, era que o pior ainda estava por começar. As entidades liberadas da Caixa de Pandora espalharam-se pela cidade, contaminando alimentos, possuindo animais, manifestando-se como espíritos, possuindo corpos.

Naquela mesma noite, ainda houve relatos de abóboras com rostos maléficos que destruíram dispensas, cavalos com fogo nos olhos quebrando celeiros e charretes, pessoas escalando paredes e contorcendo seus corpos, estranhas marcas apareceram nas paredes das casas, morcegos alvoraçados com olhos vermelhos, aparecimento de aranhas gigantes. Muitas pessoas morreram no que depois as autoridades trouxas julgaram ser uma praga repentina, mas a real causa da morte foi pela insanidade provocada por algumas das entidades liberadas. Na manhã do dia primeiro de novembro, a cidade de Barcelona amanheceu normal sem nenhum sinal dos eventos sobrenaturais que preencheram a noite anterior. As pessoas que morreram durante a noite foram enterradas no cemitério do bairro gótico às pressas pois todos queriam esquecer daquela noite.

- Isso só pode ser bruxaria! – Bradavam os moradores apavorados – Isso é magia das trevas! Pacto com o chifrudo!

Aquela noite do dia 31 de outubro, marcou a cidade de Barcelona e a história espalhou-se por todo o país. A noite das bruxas logo virou o dia das bruxas. A virgem decapitada ganhou o nome de “a mulher sem cabeça”, um fantasma que assombra as escadarias da Catedral da Sagrada Família. O dia primeiro de novembro foi então dedicado aos mortos e a tradição logo espalhou-se para os países vizinhos e depois para praticamente o mundo todo.

Os anos e séculos se passaram, as entidades liberadas da Caixa de Pandora espalharam-se pelo mundo e continuaram a se manifestar nas proximidades do dia das bruxas. Essa história foi registrada pela Ordem Els Guardianes no quarto volume de sua coleção de histórias mágicas que aconteceram no bairro El Gottic de Barcelona, que foi passado de geração em geração na ordem. Há quem diga, que se seu ouvido for suficientemente apurado, ainda é possível ouvir-se os ecos do grito da virgem nas paredes da catedral.

Embora hoje seja comum festejarmos o dia das bruxas, sua verdadeira origem foi marcada pelo sangue, pela morte de inocentes e pela abertura do mundo à seres que nunca deveriam ter sido libertos.

London, 2050

Por Laín Coubert